No blog
De Esquerda, comenta-se um post publicado neste blog no dia 29, intitulado
Guerra Perdida. Mas salvo melhor interpretação julgo estarmos a falar de coisas ligeiramente diferentes. Ambos concordamos que existe uma guerra em curso, e não tenhamos dúvidas, trata-se mesmo de uma guerra, não de um bando armado contra uma aliança de exércitos. Falamos de uma “guerra de exércitos”. Quanto à parte diplomática afirma-se no De Esquerda: “
No plano diplomático verificam-se progressos significativos, veja a reunião de ontem sobre a questão da Palestina e o consenso que recolhe a luta contra o terrorismo.”
Concordo no que ao consenso afirma, já quanto à diplomacia... O Road Map está longe de ser implementado, Sharon dá passos dúbios. Jerusalém é ainda e será sempre uma questão (cidade sagrada tanto para nós muçulmanos, como para judeus), assim como os colonatos, a extrema direita israelita está a organizar-se e não nos esqueçamos de Rabin. Abu Mazen tem alguma influência sobre o Hamas, mas ninguém controla o Hezbollah. Ainda hoje Israel como gesto de boa vontade deveria ter libertado 100 prisioneiros palestinianos, não o fez. Esta é a melhor oportunidade de paz dos últimos 30 anos, esperemos que os nossos líderes a saibam aproveitar.
No plano militar
De Esquerda acha que: “
No plano militar, as intervenções no Afeganistão e Iraque reduziram as opções para os grupos terroristas organizados e por isso não vejo como a guerra esteja perdida.”
Sob o ponto de vista estritamente militar, parece-me óbvio que a guerra do Iraque e do Afeganistão foi ganha pelos americanos. Mas não era essa a guerra de que eu falava.... Claro que as democracias ocidentais reclamam “uma certa moralidade”, está-lhes em toda a sua estrutura civilizacional. Sempre foi assim.
Que europeu não acredita no direito a um julgamento imparcial ? Ao direito a ter um advogado (mesmo Saddam Hussein, mesmo Bin Laden). Ao direito a um tratamento humano. A não ser torturado. A não ser executado. Já o é assim há muitas décadas felizmente. Mas a “guerra” que eu dizia perdida, é precisamente esta guerra. A da moralidade, afinal de contas não é o “outro lado” o Eixo Maligno ?
As leis da guerra são diferentes. Certo. Não discuto isso. Eu sei disso servi 6 anos. Mas mesmo nestas condições existem limites, no que diz respeito ao tratamento de prisioneiros e civis. O texto que me envia é interessante, mas a lógica dele aplica-se um pouco a todo o comportamento guerreiro. Quer seja a Slatko Radic, Arkan ou outros indiciados pelo TPI (no caso de Arkan... já faleceu).
Guerra Perdida
Ontem vinha noticiado na BBC a morte por "problemas de saúde crónicos" numa prisão marroquina um dos suspeitos de atentado à bomba em Casablanca. Claro está que quem minimamente conhecer os métodos da polícia marroquina consegue perceber que "problemas de saúde crónicos" em árabe magrebino querem dizer: espancamento, choques eléctricos, arrancamente de unhas, tortura do sono, mais espancamentos. Claro que se ganham problemas crónicos.
É triste ver que guerra contra o terrorismo está perdida. A guerra foi perdida no momento em que as democracias ocidentais deixaram violar principios básicos nos quais acreditam no matter what, como o direito a tratamento judicial indiferenciado, direito a um advogado, direito a não ser torturado, direito a não ser executado. Todos estes direitos têm estado a ser violados consecutivamente, na Base de Guantanamo, na Base de Bagram, em Inglaterra e agora em Marrocos e anteriormente na Jordânia.
Se as democracias ocidentais querem ter "uma certa moralidade", não se podem dar azo a usar as mesmas "técnicas" do outro lado da barricada.
Um poema de Al-Mu’tamid
Tudo tem o termo p’ra que corre,
Como os seres a própria morte morre
O destino tem a cor de um camaleão
Que é variável de seu próprio estado
Somos jogo de xadrez em sua mão;
Perde-se, talvez, o rei por causa de um peão,
A terra fica erma, o homem enterrado.
Este mundo vil nunca responde
Ao enigma do Além: Agmát o esconde.
Diz-nos
Adalberto Alves em O meu coração é árabe:
“Al-Mu’tamid é um dos grandes poetas dos Islão e, certamente, como diz Nykl, o mais notável dos poetas hispano-árabes da segunda metade do século XI.
Nascido em Beja em 1040, de uma família de poetas, após ter governado nominalmente Silves, vem a ocupar o trono do reino taifa de Sevilha em 1069, sucedendo a seu pai, o cruel e astucioso Al-Mu’tadid. Em 1091 para enfrentar Afonso XI de Castela solicita o auxílio de Yusuf ibn Tasufin, senhor dos Almorávidas. Este, após desbaratar as hostes cristãs, vira-se contra os reinos taifa que conquista, um por um. Também Al-Mu’tamid é vencido, após dura peleja, e Sevilha conquistada. O infortunado rei é desterrado para Agmat, no interior de Marrocos onde virá a morrer.
Aí o poeta é forçado a uma existência de miséria e reduzido ao presídio e às grilhetas. Entre a memória de um passado auspicioso e um amargurado presente vive Al-Mu’tamid o seu drama pessoal, que exprime em versos de excepcional força lírica. Da adversidade faz uma elegia. Das tristezas do quotidiano extrai poesia: um bando de aves entrevisto das grades; a grilheta que lhe rói o tornozelo...
Morre em 1095, não sem antes ter escrito um poema para o seu epitáfio. A sua personalidade, o seu drama e arte comoveram a gente do seu tempo. Ainda hoje a sua memória, ligada à trágica amizade com Ibn Ammar, permanece viva, muito em especial no mundo árabe; tanto assim, que o seu túmulo em Agmat é objecto de piedosas romagens de muçulmanos.
Prólogo
Neste dia 27 de Maio de 2003, a
Resistência Islâmica adere à blogoesfera portuguesa. O objectivo deste blog não é o da propagação da doutrina islâmica, neste espaço não procuramos converter ninguém, procuramos informar, opinar, ajudar a compreender.
Poderá a seu tempo encontrar neste blog, poesia árabe, literatura, artigos de opinião, tertúlias, links para outros sites de interesse, entre outras surpresas.
Sheik Sameer Baz